aliloke.

[aliloːke]: advérbio em Esperanto: "em outro lugar; alhures".

Diário do Brasil – I: Chegadas

Publicado por Barão de Grão-Mogól em 28 dezembro, 2009

E aqui cheguei.

Com um pouco de atraso e muito tempo desde a última vez, passei pelo controle de passaportes e pela alfândega em São Paulo e encontrei uma amiga que lá fora me buscar em companhia de seu marido, um outro amigo, antigo colega de estudos na “Velha Academia” – que, no momento de minha saída, estava visitando uma livraria no aeroporto.

O caminho até a residência deles, feito já à noite, não me proporcionou, no início, possibilidade de reconhecer pontes, siluetas ao fundo, edifícios remarcáveis – o que se modificou após chegarmos àquelas áreas da cidade que conhecia e nas quais navegava, e cuja modificação pude apreciar.

A primeira surpresa foi ao nos aproximarmos do Parque do Ibirapuera e ver tantas pessoas andando pelas ruas -  a noite quente e abafada, o parque ainda iluminado pelo Natal, uma grande árvore ao lado. Eu tinha me esquecido de que as pessoas SAEM de casa e andam a pé pela cidade.

O ar quente, as roupas leves, o português não mais uma excepção ouvida em geral da boca de um grupo de turistas, cheiros e ruas familiares – cheguei.

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Chegando em casa, indo para casa

Publicado por Barão de Grão-Mogól em 17 dezembro, 2009

Uma “história de amor” do Barão, que começou há muito tempo atrás, em Rio Claro, chegou há alguns dias a uma de suas etapas fundamentais.

Como todas as boas histórias de amor, ela teve seus encontros e desencontros, seus desvios, levando às vezes bem longe do caminho, as tentativas de se achar em outros amores – “amores estranhos”, “deuses estranhos” -, os períodos de silêncio e desterro no fundo da memória.

Mas por ser tão antiga e tão enraizada, ela não podia morrer facilmente. E não morreu. Brotou, com tanta força e ímpeto, numa noite no verão de 2007, que  cresceu, motivou mudanças físicas profundas e que fez com que eu, finalmente, chegasse em casa.

______

Indo. Voltando. Não como era, mas como estou. Entrar num ônibus e olhar a paisagem transformada, tentar reconhecer os caminhos que soubera seguir cegamente, tentar identificar pontos repletos de memórias, de uma viagem, de alguém, de pessoas que se foram para nunca mais voltar, de  modelos de carros que já não se vêem, sentir os cheiros da estrada e de tudo.

Dez anos.

Fazem mesmo dez anos que não visito minha cidade natal ?

A dor da perda foi tão grande que me fez tentar, a ela também, bani-la de minha vida ?

Verei em breve… um sentimento de ânsia e inquietude, alegria mesclada com apreensão, toma lentamente conta de mim.

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Um dia, um artigo: as mentiras do PT

Publicado por Barão de Grão-Mogól em 15 dezembro, 2009

O texto é tirado do blog “Pauta em Ponto”, graças a uma indicação de um grupo chamado “Rede PSDB”.

Talvez seja este o momento de dizer que não sou filiado ao PSDB, mas que apóio e apoiarei o seu candidato às eleições presidenciais brasileiras em 2010, com a finalidade de derrotar o PT e de colocar o país no quadro dos países com uma visão moderna do futuro.

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Um dia, um artigo: O programa do PT

Publicado por Barão de Grão-Mogól em 11 dezembro, 2009

Para hoje, um artigo do jornalista Reinaldo Azevedo da revista Veja sobre o programa veiculado na TV brasileira pelo PT.

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Um dia, um artigo: a Copa do Mundo na África do Sul em 2010

Publicado por Barão de Grão-Mogól em 5 dezembro, 2009

Tentando transferir para cá uma prática que sigo em um outro blog, vou procurar colocar, diariamente (ou quase diariamente) um link para algum artigo que tenha lido e que considero poder ser interessante para os eventuais leitores deste blog.

Começo, hoje, com um artigo em inglês da revista semanal americana “The New Republic” sobre a Copa do Mundo no ano vindouro na África do Sul. A correspondente da revista descreve seu pléripo por uma Johannesburgo tentando se colocar na posição de um turista estrangeiro visitando a cidade, e navegando pelo seu caótico sistema de transportes coletivos.

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Ahmadinejad no Brasil (V): a opinião de José Serra

Publicado por Barão de Grão-Mogól em 24 novembro, 2009

Cito aqui um artigo escrito pelo Governador do Estado de São Paulo, José Serra (PSDB) e publicado na Folha de S. Paulo. Muitos que também protestam contra a visita de Ahmadinejad limitam suas críticas a essa pessoa pelo fato de seu negacionismo hodiendo do genocídio cometido contra o povo judeu na Segunda Guerra – correndo assim um risco, por eles certamente indesejado, de situarem o conflito que opõe o Irã com vários países do mundo (e de longe não só países ocidentais) como mais uma parte daquele entre judeus e muçulmanos – aquele chamado, de maneira muito simplista, de “conflito do Oriente Médio”.

Que não deve ser somente esta a razão da crítica ao regime iraniano, já mencionei em vários outros artigos neste blog e em outros também. A teocracia iraniana é culpada de crimes contra seu próprio povo. O que vários articulistas brasileiros optaram por não mencionar, isto o faz aqui também José Serra.

É DESCONFORTÁVEL recebermos no Brasil o chefe de um regime ditatorial e repressivo. Afinal, temos um passado recente de luta contra a ditadura e firmamos na Constituição de 1988 os ideais de democracia e direitos humanos. Uma coisa são relações diplomáticas com ditaduras, outra é hospedar em casa os seus chefes.

O presidente Ahmadinejad, do Irã, acaba de ser reconduzido ao poder por eleições notoriamente fraudulentas. A fraude foi tão ostensiva que dura até hoje no país a onda de revolta desencadeada. Passados vários meses, os participantes de protestos pacíficos são brutalizados por bandos fascistas que não hesitam em assassinar manifestantes indefesos, como a jovem estudante que se tornou símbolo mundial da resistência iraniana. Presos, torturados, sexualmente violentados nas prisões, os opositores são condenados, alguns à morte, em julgamentos monstros que lembram os processos estalinistas de Moscou.

Como reagiríamos se apenas um décimo disso estivesse ocorrendo no Paraguai ou, digamos, em Honduras, onde nos mostramos tão indignados ao condenar a destituição de um presidente? Enquanto em Tegucigalpa nos negamos a aceitar o mínimo contacto com o governo de fato, tem sentido receber de braços abertos o homem cujo ministro da Defesa é procurado pela Interpol devido ao atentado ao centro comunitário judaico em Buenos Aires, que causou em 1994 a morte de 85 pessoas?A acusação nesse caso não provém dos americanos ou israelenses. Foi por iniciativa do governo argentino que o nome foi incluído na lista dos terroristas buscados pela Justiça. Se Brasília tem dúvidas, por que não pergunta à nossa amiga, a presidente Cristina Kirchner?

Democracia e direitos humanos são indivisíveis e devem ser defendidos em qualquer parte do mundo. É incoerente proceder como se esses valores perdessem importância na razão direta do afastamento geográfico. Tampouco é admissível honrar os que deram a vida para combater a ditadura no Brasil, na Argentina, no Chile e confratenizar-se com os que torturam e condenam à morte os opositores no Irã. Com que autoridade festejaremos em março de 2010 os 25 anos do fim da ditadura e do início da Nova República?

O extremismo e o gosto de provocação em Ahmadinejad o converteram no mais tristemente célebre negador do Holocausto, o diabólico extermínio de milhões de seres humanos, crianças, mulheres, velhos, apenas por serem judeus. Outros milhares foram massacrados por serem ciganos, homossexuais e pessoas com deficiência. O Brasil se orgulha de ter recebido muitos dos sobreviventes desse crime abominável, que não pode ser esquecido nem perdoado, quanto menos negado. O mesmo país que tentou oferecer um pouco de segurança e consolo a vítimas como Stefan Zweig e Anatol Rosenfeld agora estende honras a alguém que usa seu cargo para banalizar o mal absoluto?

As contradições não param por aí. O Brasil aceitou o Tratado de Não Proliferação Nuclear e, juntamente com a Argentina, firmou com a Agência Internacional de Energia Atômica um acordo de salvaguardas que abre nossas instalações nucleares ao escrutínio da ONU. Consolidou com isso suas credenciais de aspirante responsável ao Conselho de Segurança e expoente no mundo de uma cultura de paz ininterrupta há quase 140 anos com todos os vizinhos. Por que depreciar esse patrimônio para abraçar o chefe de um governo contra o qual o Conselho de Segurança cansou de aprovar resoluções não acatadas, exortando-o a deter suas atividades de proliferação?

Enfim, trata-se da indesejável visita de um símbolo da negação de tudo o que explica a projeção do Brasil no mundo. Essa projeção provém não das ameaças de bombas ou da coação econômica, que não praticamos, mas do exemplo de pacifismo e moderação, dos valores de democracia, direitos humanos e tolerância encarnados em nossa Constituição como a mais autêntica expressão da maneira de ser do povo brasileiro.

Artigo visto pela primeira vez no site do PSDB.

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Ahmadinejad no Brasil (IV): algumas de suas frases

Publicado por Barão de Grão-Mogól em 23 novembro, 2009

Está feito, ainda está no Brasil, já vi as fotos de Lula sorrindo e abraçado a Mahmoud Ahmadinejad.

Uma leitura rápida de algumas notícias online com supostos “especialistas de relações internacionais”, pessoas que provavelmente jamais leram o Alcorão nem ouviram falar dos fundamentos teológicos do regime iraniano, e que comparam a visita de Ahmadinejad à de outros chefes de Estado ou governo que, eles, consideram como igualmente polêmicos. Que relativizam a questão do programa nuclear iraniano (claro, o Brasil ainda não está ameaçado, como ocorre diretamente com Israel, Arábia Saudita e outros países árabes vizinhos do Irã e com os quais há uma grande tensão, a Europa, a Índia).

Um regime que usou batalhões de crianças na longa guerra contra o Iraque literalmente como meio de detonar minas e assim liberar o campo para as suas tropas, tendo a todos prometido o orgiástico paraíso muçulmano com suas 72 jovens perenamente virgens – nesse regime Lula tem confiança e atesta, do alto de sua ignorância, que seu programa nuclear tem fins pacíficos.

A história sempre se repete, já dizia alguém.

Cansa um pouco, ler coisas desse tipo. Vou tentar, se tiver forças, comentar algumas das citações desses “especialistas”. Hoje faço apenas um link para uma publicação do Estadão online com algumas das melhores frases do hóspede dileto de Lula.

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Ahmadinejad no Brasil (III): a vergonha

Publicado por Barão de Grão-Mogól em 22 novembro, 2009

A visita de Ahmadinejad é uma bofetada na cara de todos os que lutaram pelos direitos humanos. É uma declaração de que todo o discurso sobre direitos humanos que se travavam na época da ditadura militar eram só “para inglês ver”.

Nós que lutávamos contra as violações do mesmo, que protestávamos ou nos sentíamos indignados pela morte de um Vladimir Herzog e de tantos outros sob tortura – uma parte de nós se perfila para saudar o presidente iraniano com as desculpas de um hipotético multilateralismo nas relações internacionais, com as desculpas de uma hipotética influência brasileira sobre o mesmo ?

Se Lula e os que formam seu apoio ideológico tivessem algum resto de sentimento de vergonha ou dignidade, jamais poderiam convidar para uma visita oficial essa pessoa.

Mas o poder corrompe.

Quantos milhares de mortos causados pela teocracia iraniana, em seu país e fora dele – entre seu próprio povo ? Quantas milhares de mulheres expulsas de seus empregos, presas, estupradas (até, em alguns casos, pouco antes de sua execução !),  apedrejadas, mortas ? Quantos ESQUERDISTAS iranianos torturados e mortos ? Quantos bahá’is oprimidos, perseguidos, humilhados ? E isso tudo sem falar do fato de que, no neo-nazismo europeu (e com certeza, no ridículo neo-nazismo brasileiro) essa pessoa – Ahmadinejad – seja um dos heróis do momento.

Alguns dizem, mesmo condenando o regime iraniano, que o Brasil é a “porta do diálogo” para o mesmo, e que há que o continuar, o aprofundar.

Dizer que o Brasil é a porta de diálogo do Irã com o mundo ocidental é um pouco exagerado. Pode ser uma das portas, mas não é a mais importante.

O que me incomoda nesse tipo de resposta:

- essa obsessão com um diálogo infrutífero (DE LONGE não só da parte do Lula. A Alemanha, por exemplo, “dialoga criticamente” – kritischer Dialog – com o Irã há décadas. Os resultados são conhecidos. Vi com meus próprios olhos as marcas de tortura que um oposicionista iraniano, namorado de uma amiga dos tempos da universidade nesse país, tinha em seu corpo. Um diálogo que não traz nada, semelhante ao diálogo travado entre Chamberlain e Deladier com Hitler nos idos de 1938.

Mas, sempre continuando no exemplo da Alemanha, pelo menos por lá está se chamando esse diálogo de crítico. Talvez não tenha esta informação, mas fez Lula, ou o seu governo, alguma crítica ao governo iraniano ?

- a questão dos direitos humanos, que muitos colocam em segundo plano e chaman de parte da “cultura ocidental”, que serve só para acirrar os ânimos de certos países. Então os direitos humanos são apenas parte da cultura ocidental, que não tem validade em outros países ?  Diz-se também que uma confrontação com o Irão só serve para acirrar os ânimos entre países, e que serve só aos interesses de um determinado país (Israel).  No caso do Irã, acirrar os ânimos dos torturadores e opressores de minorias religiosas, de oposicionistas, de estudantes e trabalhadores querendo liberdade, dos que são contra a liberdade de imprensa, dos opressores de mulheres ? Os ânimos de quem condena à morte pessoas que manifestaram-se contra a fraude eleitoral recente ?

São esse os ânimos acirrados – dessas pessoas que muitos do que estão no governo de Lula e que apóiam o governo de Lula querem acirrar, ao não se levantarem em repúdio à essa visita.

O que eles – os que defendem a visita – teriam dito se o governo militar brasileiro nos anos 70 tivesse condenado à morte quem participasse de manifestações pelo fim da ditadura ? O que eles diriam se o governo semi-legítimo de Honduras (por exemplo) condenasse à morte pessoas que estivessem do lado de Zelaya ?

Defendem isso ? Se for assim, então, é um grande caminho percorrido por alguém (digamos, Lula) que combateu a ditadura militar no Brasil e agora se encontra, com beijos e abraços, com uma pessoa com as mãos sujas de sangue. Recusa-se a dialogar com o vice-presidente de Honduras (por exemplo), mas não tem escrúpulos em dialogar com Ahmadinejad e o que ele representa, o que de há mais retrógrado no mundo. Belo exemplo. Se for isso, pode por definitivamente no museu da história tudo o que havia de idealismo e de desejo de liberdade, se é que já não foi posto há muito tempo.

Vergonha.

Revolta.

Indignação !

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Ahmadinejad no Brasil (II): background histórico

Publicado por Barão de Grão-Mogól em 15 outubro, 2009

Está agora confirmada por Celso Amorim, Ministro das Relações Exteriores do Brasil, a visita oficial do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad à Brasília no dia 23 de novembro.

O presidente iraniano é líder de um país com o qual o Brasil pretende estreitar seu relacionamento. Ahmadinejad já esteve convidado – deveria ter vindo em maio, tendo cancelado sua visita em último instante, provavelmente devido às eleições presidenciais em seu país que se realizaram algumas semanas depois da data inicialmente marcada para sua viagem.

A carta aberta do Secretário Executivo do American Jewish Committe (uma entidade americana de defesa de interesses judaicos a nível mundial), publicada no dia 12 de outubro no website do Huftingon Post, cuja tradução em português pode ser lida neste blog, lança uma série de artigos que pretendo escrever sobre o Irã, com um foco especial na questão do respeito aos direitos humanos, desde a queda do regime do xá Reza Pahlevi em 1979, com o fim da monarquia naquela país e com a instalação de uma república teocrática islâmica xiita.

Ganho a impressão que os abusos a direitos fundamentais do ser humano não são bem conhecidos ou divulgados por parte da mídia brasileira – embora estejam documentados por várias organizações mundiais, de exilados iranianos monarquistas à Amnesty International, passando por representantes da Fé Bahá’i. Ou estariam sendo simplesmente ignorados ?

O que é o Irã de hoje, quem é o presidente Ahmadinejad, e por que eu – e com certeza muitos outros – acreditam que sua visita é péssima para o Brasil e para o resto do mundo ?

Um pouco de história

Comecemos com um resumo sumário da história iraniana no século XX – sem esquecer que o Irã, a antiga Pérsia, é repositório de uma das mais antigas culturas da Humanidade.

Em 1921, o militar Reza Khan depôs, por meio de um golpe de estado, a dinastia imperial reinante – os Qajar - e proclamou-se como o novo xá da Pérsia (o nome “Irã” só foi adotado, por sua iniciativa, em 1935), iniciando a dinastia Pahlavi. Seu filho, Mohammed Reza Pahlevi, sucedeu-o ao trono imperial em 1941. Reza filho iniciou, durante seu longo reinado, diversas modernizações na sociedade iraniana – alfabetização, industrialização, melhoras decisivas na situação de mulheres e minorias religiosas, ao mesmo tempo em que se tornava, politicamente, cada vez mais opressor de opiniões contrárias – movimentos de caráter diversos, desde liberais democratas a comunistas e trotskistas, mais a resistência crescente do clero xiita contra certas mudanças que iriam, de acordo com sua visão, contra os preceitos do Islã.

Em janeiro de 1978, iniciaram-se manifestações massivas e greves gerais, duramente reprimididas pelos órgãos de segurança governamentais, mas o país caminhava mais e mais rumo ao caos. A situação intensificou-se a partir de agost de 78, e o xá Reza Pahlevi deixou o país em janeiro de 1979, marcando, assim, o final da monarquia. Um dos líderes da oposição ao seu governo, o ayatollah Ruhollah Khomeini, que vivia exilado do país desde 1964, retornou em fevereiro de 1979 com grande aclamação popular. O restante é mais ou menos conhecido: a criação de uma república islâmica moldada sob seus princípios no final daquele ano, e o início de uma nova opressão – contra outros opositores de cunho laico (os já citados liberais, comunistas, socialistas, trotzkistas), minorias religiosas e étnicas, contra mulheres e homossexuais.

A população iraniana

O Irã nunca foi um pais étnicamente (ou religiosamente) homogêneo, como se poderia pensar. Além dos persas, que fazem 51% da população, o país é habitado por significantes minorias azeris (como no vizinho Azerbaidjão), curdas, balúchis (como na vizinha província paquistanesa do Baluchistão), árabes, armênias, etc.

Em termos religiosos, o Islã domina; 89% da população é muçulmana xiita, cerca de 9% são muçulmanos sunitas, e o restantes são bahá’is, cristãos, judeus, zoroastrianos e membros de outros grupos.

O Islã iraniano

Em termos simplificados, o Islã dividiu-se, poucas décadas após a morte de seu fundador, Muhammad, em dois grupos principais: os sunitas, majoritários a nível mundial, e os xiitas – do árabe Shiat Ali, Partido de Ali (genro de Muhammad).

Entrar em detalhes sobre as diferências doutrinárias entre esses dois grupos vai bem além do intento deste artigo. É interessante saber que há uma mais que milenar história de rivalidade e ódio entre esses grupos, e que uma boa parte dos sunitaw considera os xiitas como heréticos. No Afganistão, de maioria sunita, a minoria xiita foi duramente perseguida pelo governo do Talibã, e os xiitas no Paquistão, lá também minoritários, são freqüentemente alvos de ataques homicidas. A minoria xiita na Arábia Saudita também está sob controle estreito pelo regime sunita-wahhabita que lá reina.

Embora seja sempre associado à variedade xiita do Islã, originariamente os persas foram sunitas, desde a conquista da Pérsia sassânida pelos árabes no século VII. Um dos imperadores da dinastia safávida elevou uma variante do xiismo à categoria de religião oficial no século XVI – o xiismo  duodecimano. Há várias e incontáveis subdivisões no xiismo, sendo o duodecimanismo a maior delas. Outras ainda existentes são os vários grupos de ismailís, uma parte dos quais tem o famoso Aga Khan como seu supremo líder. Diferenciam-se estes grupos entre si – novamente simplificando – pelo número de imãs – sucessores de Muhammad na liderança dos fiéis muçulmanos, líder espiritual e secular – que consideram como sendo os legítimos: doze, para os duodecimanos (provindo daí seu nome), e sete, para os ismailís (e para outros).

Muito relevante para se entender o Irã atual, a sua política, é a crença relacionada ao décimo-segundo Imã, Muhammad ibn-Hassan – o Imã Mahdi. Segundo essa crença, ele estaria “oculto” do mundo desde o ano de 872, e deverá voltar no final dos tempos para liderar a vitória final do Islã sobre todo o mundo e iniciar a renovação da sociedade segundo os princípios muçulmanos – uma clara figura messiânica. Falarei sobre isso em um artigo posterior desta série, porque tem tudo a ver com a ameaça representada por um Irã munido de armas nucleares – um ponto descuidado e ignorado por muitos.

(Clique aqui para ler a primeira parte desta série).

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Ahmadinejad no Brasil (I): Carta Aberta de David Harris (AJC) ao Presidente Lula

Publicado por Barão de Grão-Mogól em 14 outubro, 2009

O tema da visita de Mahmud Ahmadinejad, presidente iraniano, ao Brasil no próximo mês vai ocupar algum tempo e espaço deste blog.

Coloco aqui uma tradução (autorizada) de uma carta aberta que o Secretário Executivo do American Jewish Committe – AJC (Comitê Judaico Americano), David Harris, publicou no dia 12 de outubro de 2009 no website do “Huffington Post”.

E aqui está:

Excelentíssimo Presidente Lula

Já tinha escrito-lhe na primavera passada, profundamente preocupado com a visita do presidente Mahmoud Ahmadinejad a Brasília, que estava planejada para o dia 6 de maio.

Felizmente essa visita não foi efetuada.

Com tristeza, vejo agora que ela está marcada para o próximo mês.

Excelência, peço que reconsidere.

Sua Excelência é um líder político que goza de ampla admiração. Sob sua liderança, o Brasil rapidamente posicionou-se no plano mundial como “cidadão de primeira categoria” da comunidade internacional, para usar uma de suas frases.

Por que desejaria Sua Excelência transmitir algo de seu prestígio a Ahmadinejad, que por ele anseia, mas que com certeza não o merece ?

E por que o Brasil, hoje um fanal da democracia, estaria buscando relações estreitas com o Irã, em tudo seu oposto ?

Sr. Presidente, Sua Excelência falou com grande paixão nas Nações Unidas, há algumas semanas atrás, sobre o tipo de mundo que deseja construir.

Sua Excelência exigiu a manutenção e a ampliação do respeito aos direitos humanos. Porém, sob o regime atual, o Irã tem pisado nesses – flagrantemente, brutalmente, repetidamente.

Sua Excelência manifestou seu apoio ao desarmamento, e à não-proliferação de armas nucleares. Porém, sob o regime atual, o Irã está se armando rapidamente e está violando resoluções do Conselho de Segurança da ONU e diretivas da Agência Internacional de Energia Atômica com relação à proliferação nuclear.

Sua Excelência exigiu uma confrontação com o terrorismo “sem estigmatizar grupos étnicos e religiões”. Sob o regime atual, o Irã promove e financia ativamente o terrorismo, e ataca grupos étnicos e religiões, incluindo a comunidade judaica na sua própria vizinhança, na América do Sul.

E Sua Excelência articulou uma visão para dois estados coexistindo no Oriente Médio, um estado palestino ao lado de Israel. Sob o regime atual, o Irã quer um mundo sem Israel – pura e simplesmente.

Em outras palavras, Excelência, não só o Irã não compartilha de seus valores fundamentais, mas opõe-se a eles ativamente.

Talvez diga Sua Excelência que o diálogo entre as nações tem a capacidade de mudar opiniões. Em alguns casos, com certeza.

Mas muitos já tentaram este tipo de diálogo com o Irã, cada uma dessas partes dizendo que eles poderiam encontrar a chave que abriria as portas para uma nova era com Teerã.

Os resultados provam o contrário. Os líderes iranianos só endureceram suas posições ao correr dos anos, ao mesmo tempo em que tentavam explorar ao máximo as oportunidades comerciais e diplomáticas que receberam durante suas visitas a várias capitais no mundo, de Ancara a Moscou, de Kuala Lumpur a Nova Délhi.

Agora, como sabe Sua Excelência, há um novo diálogo com o Irã, mas este está destinado a ser diferente.

No começo deste mês, representantes de seis nações, os membros permanentes do Conselho de Segurança mais a Alemanha, encontraram-se com funcionários iranianos para dizer-lhes que a paciência está esgotando-se com o já familiar modo praticado por Teerã de desmentidos e enganações no que se refere ao seu programa nuclear.

Pelo menos por enquanto, estas discussões representam a maior esperança para desviar o Irã desse caminho perigoso. Por que, então, a necessidade de receber o presidente Ahmadinejad, quando o efeito disso, mesmo que indesejado, poderá complicar ainda

Excelência, quando lhe escrevi na primavera passada, os fatos falando contra Ahmadinejad já eram notórios. Nos meses que se passaram desde então, eles aumentaram.

Pense nas eleições iranianas de 12 de junho. É evidente que houve fraude e uma massiva manipulação de votos.

Ou então, pense no que aconteceu depois. Quantos iranianos que foram protestar nas ruas foram aprisionados, espancados, torturados ou mortos ? Lembre-se da morte de Neda Agha-Soltan, que veio a simbolizar a violência do regime contra seu próprio povo.

Pense no destino de sete líderes bahái, membros de uma comunidade que sofre perseguição há muito tempo, aprisionados com acusações fabricadas e que estão face à pena de morte. O julgamento está marcado para este mês, tendo sido adiado em agosto, uma vez que seu advogado também foi preso depois das eleições.

Pense no odioso discurso de Ahmadinejad no dia 18 de setembro, “Dia de Al-Quds”. Uma vez mais, ele chamou o holocausto de uma invenção.

Pense nas suas palavras, alguns dias após, nas Nações Unidas, em que acusou os judeus de todo o tipo de crimes nefastos, ocasionando a saída de várias delegações européias e latino-americanas da Assembléia Geral – embora, lamentavelmente,  não a sua, Excelência.

Pense no lançamento dos mísseis Shabab-3 e Sejil-2, muito bem divulgado, no mesmo mês. São esses os indícios de um desejo de convivência pacífica do Irã com seus vizinhos ?

Depois disso, tivemos o caso de Qom. Apesar dos esforços do Irã em tentar colocar de lado a história de um sítio não-declarado de enriquecimento de urânio, é óbvio que o país foi pego de supresa no meio de uma grande tentativa de despitamento. Quantas outros sítios não-declarados terá o Irã ? E qual sua finalidade, senão a de servir à causa iraniana de obter armas nucleares ?

Excelência, faça o que é o certo.

Pela sua dedicação à causa dos direitos humanos e à dos valores democráticos, faça o que é o certo.

Pela sua dedicação à causa da não-proliferação de armas nucleares e à da coexistência pacífica, faça o que é o certo.

Pelos iranianos corajosos que arriscaram suas vidas, em alguns casos pagando com suas vidas para desafiar o abuso de poder do regime, faça o que é o certo.

Por todos aqueles que no Brasil e em outras partes sentem-se ultrajados pela maneira como o Irã trata mulheres, gays, minorias religiosas, jornalistas independentes, ativistas dos movimentos estudantis, e sindicalistas, faça o que é o certo.

Pela consciência do Brasil e por seu exemplo ante o mundo, faça o que é o certo.

Ou será que veremos, no próximo mês, o tapete vermelho, a mão estendida, o sorriso cativante, o abraço apertado, os negócios combinados, e a promessa de laços mais íntimos com o Irã ?

Excelência, enquanto ainda há tempo, peço-lhe com insistência que reconsidere seu convite – e que faça o que é o certo.

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