Está agora confirmada por Celso Amorim, Ministro das Relações Exteriores do Brasil, a visita oficial do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad à Brasília no dia 23 de novembro.
O presidente iraniano é líder de um país com o qual o Brasil pretende estreitar seu relacionamento. Ahmadinejad já esteve convidado – deveria ter vindo em maio, tendo cancelado sua visita em último instante, provavelmente devido às eleições presidenciais em seu país que se realizaram algumas semanas depois da data inicialmente marcada para sua viagem.
A carta aberta do Secretário Executivo do American Jewish Committe (uma entidade americana de defesa de interesses judaicos a nível mundial), publicada no dia 12 de outubro no website do Huftingon Post, cuja tradução em português pode ser lida neste blog, lança uma série de artigos que pretendo escrever sobre o Irã, com um foco especial na questão do respeito aos direitos humanos, desde a queda do regime do xá Reza Pahlevi em 1979, com o fim da monarquia naquela país e com a instalação de uma república teocrática islâmica xiita.
Ganho a impressão que os abusos a direitos fundamentais do ser humano não são bem conhecidos ou divulgados por parte da mídia brasileira – embora estejam documentados por várias organizações mundiais, de exilados iranianos monarquistas à Amnesty International, passando por representantes da Fé Bahá’i. Ou estariam sendo simplesmente ignorados ?
O que é o Irã de hoje, quem é o presidente Ahmadinejad, e por que eu – e com certeza muitos outros – acreditam que sua visita é péssima para o Brasil e para o resto do mundo ?
Um pouco de história
Comecemos com um resumo sumário da história iraniana no século XX – sem esquecer que o Irã, a antiga Pérsia, é repositório de uma das mais antigas culturas da Humanidade.
Em 1921, o militar Reza Khan depôs, por meio de um golpe de estado, a dinastia imperial reinante – os Qajar - e proclamou-se como o novo xá da Pérsia (o nome “Irã” só foi adotado, por sua iniciativa, em 1935), iniciando a dinastia Pahlavi. Seu filho, Mohammed Reza Pahlevi, sucedeu-o ao trono imperial em 1941. Reza filho iniciou, durante seu longo reinado, diversas modernizações na sociedade iraniana – alfabetização, industrialização, melhoras decisivas na situação de mulheres e minorias religiosas, ao mesmo tempo em que se tornava, politicamente, cada vez mais opressor de opiniões contrárias – movimentos de caráter diversos, desde liberais democratas a comunistas e trotskistas, mais a resistência crescente do clero xiita contra certas mudanças que iriam, de acordo com sua visão, contra os preceitos do Islã.
Em janeiro de 1978, iniciaram-se manifestações massivas e greves gerais, duramente reprimididas pelos órgãos de segurança governamentais, mas o país caminhava mais e mais rumo ao caos. A situação intensificou-se a partir de agost de 78, e o xá Reza Pahlevi deixou o país em janeiro de 1979, marcando, assim, o final da monarquia. Um dos líderes da oposição ao seu governo, o ayatollah Ruhollah Khomeini, que vivia exilado do país desde 1964, retornou em fevereiro de 1979 com grande aclamação popular. O restante é mais ou menos conhecido: a criação de uma república islâmica moldada sob seus princípios no final daquele ano, e o início de uma nova opressão – contra outros opositores de cunho laico (os já citados liberais, comunistas, socialistas, trotzkistas), minorias religiosas e étnicas, contra mulheres e homossexuais.
A população iraniana
O Irã nunca foi um pais étnicamente (ou religiosamente) homogêneo, como se poderia pensar. Além dos persas, que fazem 51% da população, o país é habitado por significantes minorias azeris (como no vizinho Azerbaidjão), curdas, balúchis (como na vizinha província paquistanesa do Baluchistão), árabes, armênias, etc.
Em termos religiosos, o Islã domina; 89% da população é muçulmana xiita, cerca de 9% são muçulmanos sunitas, e o restantes são bahá’is, cristãos, judeus, zoroastrianos e membros de outros grupos.
O Islã iraniano
Em termos simplificados, o Islã dividiu-se, poucas décadas após a morte de seu fundador, Muhammad, em dois grupos principais: os sunitas, majoritários a nível mundial, e os xiitas – do árabe Shiat Ali, Partido de Ali (genro de Muhammad).
Entrar em detalhes sobre as diferências doutrinárias entre esses dois grupos vai bem além do intento deste artigo. É interessante saber que há uma mais que milenar história de rivalidade e ódio entre esses grupos, e que uma boa parte dos sunitaw considera os xiitas como heréticos. No Afganistão, de maioria sunita, a minoria xiita foi duramente perseguida pelo governo do Talibã, e os xiitas no Paquistão, lá também minoritários, são freqüentemente alvos de ataques homicidas. A minoria xiita na Arábia Saudita também está sob controle estreito pelo regime sunita-wahhabita que lá reina.
Embora seja sempre associado à variedade xiita do Islã, originariamente os persas foram sunitas, desde a conquista da Pérsia sassânida pelos árabes no século VII. Um dos imperadores da dinastia safávida elevou uma variante do xiismo à categoria de religião oficial no século XVI – o xiismo duodecimano. Há várias e incontáveis subdivisões no xiismo, sendo o duodecimanismo a maior delas. Outras ainda existentes são os vários grupos de ismailís, uma parte dos quais tem o famoso Aga Khan como seu supremo líder. Diferenciam-se estes grupos entre si – novamente simplificando – pelo número de imãs – sucessores de Muhammad na liderança dos fiéis muçulmanos, líder espiritual e secular – que consideram como sendo os legítimos: doze, para os duodecimanos (provindo daí seu nome), e sete, para os ismailís (e para outros).
Muito relevante para se entender o Irã atual, a sua política, é a crença relacionada ao décimo-segundo Imã, Muhammad ibn-Hassan – o Imã Mahdi. Segundo essa crença, ele estaria “oculto” do mundo desde o ano de 872, e deverá voltar no final dos tempos para liderar a vitória final do Islã sobre todo o mundo e iniciar a renovação da sociedade segundo os princípios muçulmanos – uma clara figura messiânica. Falarei sobre isso em um artigo posterior desta série, porque tem tudo a ver com a ameaça representada por um Irã munido de armas nucleares – um ponto descuidado e ignorado por muitos.
(Clique aqui para ler a primeira parte desta série).



"A Arte da Política. A História que vivi" de Fernando Henrique Cardoso.
Estive, por uma semana, no norte do País Basco, na parte francesa (que integra o departamento de Pyrennés Atlantiques), numa casa de campo situada perto da cidadezinha de Baigorri (em francês, Saint-Étienne-de-Baïgorry)





