aliloke.

[aliloːke]: advérbio em Esperanto: "em outro lugar; alhures".

Ahmadinejad no Brasil (II): background histórico

Publicado por Barão de Grão-Mogól em 15 Outubro, 2009

Está agora confirmada por Celso Amorim, Ministro das Relações Exteriores do Brasil, a visita oficial do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad à Brasília no dia 23 de novembro.

O presidente iraniano é líder de um país com o qual o Brasil pretende estreitar seu relacionamento. Ahmadinejad já esteve convidado – deveria ter vindo em maio, tendo cancelado sua visita em último instante, provavelmente devido às eleições presidenciais em seu país que se realizaram algumas semanas depois da data inicialmente marcada para sua viagem.

A carta aberta do Secretário Executivo do American Jewish Committe (uma entidade americana de defesa de interesses judaicos a nível mundial), publicada no dia 12 de outubro no website do Huftingon Post, cuja tradução em português pode ser lida neste blog, lança uma série de artigos que pretendo escrever sobre o Irã, com um foco especial na questão do respeito aos direitos humanos, desde a queda do regime do xá Reza Pahlevi em 1979, com o fim da monarquia naquela país e com a instalação de uma república teocrática islâmica xiita.

Ganho a impressão que os abusos a direitos fundamentais do ser humano não são bem conhecidos ou divulgados por parte da mídia brasileira – embora estejam documentados por várias organizações mundiais, de exilados iranianos monarquistas à Amnesty International, passando por representantes da Fé Bahá’i. Ou estariam sendo simplesmente ignorados ?

O que é o Irã de hoje, quem é o presidente Ahmadinejad, e por que eu – e com certeza muitos outros – acreditam que sua visita é péssima para o Brasil e para o resto do mundo ?

Um pouco de história

Comecemos com um resumo sumário da história iraniana no século XX – sem esquecer que o Irã, a antiga Pérsia, é repositório de uma das mais antigas culturas da Humanidade.

Em 1921, o militar Reza Khan depôs, por meio de um golpe de estado, a dinastia imperial reinante – os Qajar - e proclamou-se como o novo xá da Pérsia (o nome “Irã” só foi adotado, por sua iniciativa, em 1935), iniciando a dinastia Pahlavi. Seu filho, Mohammed Reza Pahlevi, sucedeu-o ao trono imperial em 1941. Reza filho iniciou, durante seu longo reinado, diversas modernizações na sociedade iraniana – alfabetização, industrialização, melhoras decisivas na situação de mulheres e minorias religiosas, ao mesmo tempo em que se tornava, politicamente, cada vez mais opressor de opiniões contrárias – movimentos de caráter diversos, desde liberais democratas a comunistas e trotskistas, mais a resistência crescente do clero xiita contra certas mudanças que iriam, de acordo com sua visão, contra os preceitos do Islã.

Em janeiro de 1978, iniciaram-se manifestações massivas e greves gerais, duramente reprimididas pelos órgãos de segurança governamentais, mas o país caminhava mais e mais rumo ao caos. A situação intensificou-se a partir de agost de 78, e o xá Reza Pahlevi deixou o país em janeiro de 1979, marcando, assim, o final da monarquia. Um dos líderes da oposição ao seu governo, o ayatollah Ruhollah Khomeini, que vivia exilado do país desde 1964, retornou em fevereiro de 1979 com grande aclamação popular. O restante é mais ou menos conhecido: a criação de uma república islâmica moldada sob seus princípios no final daquele ano, e o início de uma nova opressão – contra outros opositores de cunho laico (os já citados liberais, comunistas, socialistas, trotzkistas), minorias religiosas e étnicas, contra mulheres e homossexuais.

A população iraniana

O Irã nunca foi um pais étnicamente (ou religiosamente) homogêneo, como se poderia pensar. Além dos persas, que fazem 51% da população, o país é habitado por significantes minorias azeris (como no vizinho Azerbaidjão), curdas, balúchis (como na vizinha província paquistanesa do Baluchistão), árabes, armênias, etc.

Em termos religiosos, o Islã domina; 89% da população é muçulmana xiita, cerca de 9% são muçulmanos sunitas, e o restantes são bahá’is, cristãos, judeus, zoroastrianos e membros de outros grupos.

O Islã iraniano

Em termos simplificados, o Islã dividiu-se, poucas décadas após a morte de seu fundador, Muhammad, em dois grupos principais: os sunitas, majoritários a nível mundial, e os xiitas – do árabe Shiat Ali, Partido de Ali (genro de Muhammad).

Entrar em detalhes sobre as diferências doutrinárias entre esses dois grupos vai bem além do intento deste artigo. É interessante saber que há uma mais que milenar história de rivalidade e ódio entre esses grupos, e que uma boa parte dos sunitaw considera os xiitas como heréticos. No Afganistão, de maioria sunita, a minoria xiita foi duramente perseguida pelo governo do Talibã, e os xiitas no Paquistão, lá também minoritários, são freqüentemente alvos de ataques homicidas. A minoria xiita na Arábia Saudita também está sob controle estreito pelo regime sunita-wahhabita que lá reina.

Embora seja sempre associado à variedade xiita do Islã, originariamente os persas foram sunitas, desde a conquista da Pérsia sassânida pelos árabes no século VII. Um dos imperadores da dinastia safávida elevou uma variante do xiismo à categoria de religião oficial no século XVI – o xiismo  duodecimano. Há várias e incontáveis subdivisões no xiismo, sendo o duodecimanismo a maior delas. Outras ainda existentes são os vários grupos de ismailís, uma parte dos quais tem o famoso Aga Khan como seu supremo líder. Diferenciam-se estes grupos entre si – novamente simplificando – pelo número de imãs – sucessores de Muhammad na liderança dos fiéis muçulmanos, líder espiritual e secular – que consideram como sendo os legítimos: doze, para os duodecimanos (provindo daí seu nome), e sete, para os ismailís (e para outros).

Muito relevante para se entender o Irã atual, a sua política, é a crença relacionada ao décimo-segundo Imã, Muhammad ibn-Hassan – o Imã Mahdi. Segundo essa crença, ele estaria “oculto” do mundo desde o ano de 872, e deverá voltar no final dos tempos para liderar a vitória final do Islã sobre todo o mundo e iniciar a renovação da sociedade segundo os princípios muçulmanos – uma clara figura messiânica. Falarei sobre isso em um artigo posterior desta série, porque tem tudo a ver com a ameaça representada por um Irã munido de armas nucleares – um ponto descuidado e ignorado por muitos.

(Clique aqui para ler a primeira parte desta série).

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Ahmadinejad no Brasil (I): Carta Aberta de David Harris (AJC) ao Presidente Lula

Publicado por Barão de Grão-Mogól em 14 Outubro, 2009

O tema da visita de Mahmud Ahmadinejad, presidente iraniano, ao Brasil no próximo mês vai ocupar algum tempo e espaço deste blog.

Coloco aqui uma tradução (autorizada) de uma carta aberta que o Secretário Executivo do American Jewish Committe – AJC (Comitê Judaico Americano), David Harris, publicou no dia 12 de outubro de 2009 no website do “Huffington Post”.

E aqui está:

Excelentíssimo Presidente Lula

Já tinha escrito-lhe na primavera passada, profundamente preocupado com a visita do presidente Mahmoud Ahmadinejad a Brasília, que estava planejada para o dia 6 de maio.

Felizmente essa visita não foi efetuada.

Com tristeza, vejo agora que ela está marcada para o próximo mês.

Excelência, peço que reconsidere.

Sua Excelência é um líder político que goza de ampla admiração. Sob sua liderança, o Brasil rapidamente posicionou-se no plano mundial como “cidadão de primeira categoria” da comunidade internacional, para usar uma de suas frases.

Por que desejaria Sua Excelência transmitir algo de seu prestígio a Ahmadinejad, que por ele anseia, mas que com certeza não o merece ?

E por que o Brasil, hoje um fanal da democracia, estaria buscando relações estreitas com o Irã, em tudo seu oposto ?

Sr. Presidente, Sua Excelência falou com grande paixão nas Nações Unidas, há algumas semanas atrás, sobre o tipo de mundo que deseja construir.

Sua Excelência exigiu a manutenção e a ampliação do respeito aos direitos humanos. Porém, sob o regime atual, o Irã tem pisado nesses – flagrantemente, brutalmente, repetidamente.

Sua Excelência manifestou seu apoio ao desarmamento, e à não-proliferação de armas nucleares. Porém, sob o regime atual, o Irã está se armando rapidamente e está violando resoluções do Conselho de Segurança da ONU e diretivas da Agência Internacional de Energia Atômica com relação à proliferação nuclear.

Sua Excelência exigiu uma confrontação com o terrorismo “sem estigmatizar grupos étnicos e religiões”. Sob o regime atual, o Irã promove e financia ativamente o terrorismo, e ataca grupos étnicos e religiões, incluindo a comunidade judaica na sua própria vizinhança, na América do Sul.

E Sua Excelência articulou uma visão para dois estados coexistindo no Oriente Médio, um estado palestino ao lado de Israel. Sob o regime atual, o Irã quer um mundo sem Israel – pura e simplesmente.

Em outras palavras, Excelência, não só o Irã não compartilha de seus valores fundamentais, mas opõe-se a eles ativamente.

Talvez diga Sua Excelência que o diálogo entre as nações tem a capacidade de mudar opiniões. Em alguns casos, com certeza.

Mas muitos já tentaram este tipo de diálogo com o Irã, cada uma dessas partes dizendo que eles poderiam encontrar a chave que abriria as portas para uma nova era com Teerã.

Os resultados provam o contrário. Os líderes iranianos só endureceram suas posições ao correr dos anos, ao mesmo tempo em que tentavam explorar ao máximo as oportunidades comerciais e diplomáticas que receberam durante suas visitas a várias capitais no mundo, de Ancara a Moscou, de Kuala Lumpur a Nova Délhi.

Agora, como sabe Sua Excelência, há um novo diálogo com o Irã, mas este está destinado a ser diferente.

No começo deste mês, representantes de seis nações, os membros permanentes do Conselho de Segurança mais a Alemanha, encontraram-se com funcionários iranianos para dizer-lhes que a paciência está esgotando-se com o já familiar modo praticado por Teerã de desmentidos e enganações no que se refere ao seu programa nuclear.

Pelo menos por enquanto, estas discussões representam a maior esperança para desviar o Irã desse caminho perigoso. Por que, então, a necessidade de receber o presidente Ahmadinejad, quando o efeito disso, mesmo que indesejado, poderá complicar ainda

Excelência, quando lhe escrevi na primavera passada, os fatos falando contra Ahmadinejad já eram notórios. Nos meses que se passaram desde então, eles aumentaram.

Pense nas eleições iranianas de 12 de junho. É evidente que houve fraude e uma massiva manipulação de votos.

Ou então, pense no que aconteceu depois. Quantos iranianos que foram protestar nas ruas foram aprisionados, espancados, torturados ou mortos ? Lembre-se da morte de Neda Agha-Soltan, que veio a simbolizar a violência do regime contra seu próprio povo.

Pense no destino de sete líderes bahái, membros de uma comunidade que sofre perseguição há muito tempo, aprisionados com acusações fabricadas e que estão face à pena de morte. O julgamento está marcado para este mês, tendo sido adiado em agosto, uma vez que seu advogado também foi preso depois das eleições.

Pense no odioso discurso de Ahmadinejad no dia 18 de setembro, “Dia de Al-Quds”. Uma vez mais, ele chamou o holocausto de uma invenção.

Pense nas suas palavras, alguns dias após, nas Nações Unidas, em que acusou os judeus de todo o tipo de crimes nefastos, ocasionando a saída de várias delegações européias e latino-americanas da Assembléia Geral – embora, lamentavelmente,  não a sua, Excelência.

Pense no lançamento dos mísseis Shabab-3 e Sejil-2, muito bem divulgado, no mesmo mês. São esses os indícios de um desejo de convivência pacífica do Irã com seus vizinhos ?

Depois disso, tivemos o caso de Qom. Apesar dos esforços do Irã em tentar colocar de lado a história de um sítio não-declarado de enriquecimento de urânio, é óbvio que o país foi pego de supresa no meio de uma grande tentativa de despitamento. Quantas outros sítios não-declarados terá o Irã ? E qual sua finalidade, senão a de servir à causa iraniana de obter armas nucleares ?

Excelência, faça o que é o certo.

Pela sua dedicação à causa dos direitos humanos e à dos valores democráticos, faça o que é o certo.

Pela sua dedicação à causa da não-proliferação de armas nucleares e à da coexistência pacífica, faça o que é o certo.

Pelos iranianos corajosos que arriscaram suas vidas, em alguns casos pagando com suas vidas para desafiar o abuso de poder do regime, faça o que é o certo.

Por todos aqueles que no Brasil e em outras partes sentem-se ultrajados pela maneira como o Irã trata mulheres, gays, minorias religiosas, jornalistas independentes, ativistas dos movimentos estudantis, e sindicalistas, faça o que é o certo.

Pela consciência do Brasil e por seu exemplo ante o mundo, faça o que é o certo.

Ou será que veremos, no próximo mês, o tapete vermelho, a mão estendida, o sorriso cativante, o abraço apertado, os negócios combinados, e a promessa de laços mais íntimos com o Irã ?

Excelência, enquanto ainda há tempo, peço-lhe com insistência que reconsidere seu convite – e que faça o que é o certo.

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Desilusões

Publicado por Barão de Grão-Mogól em 13 Outubro, 2009

A discussão começou numa lista eletrônica da qual sou participante há talvez dois anos: os integrantes são, como eu, pessoas que estudaram numa escola de Direito de elite em São Paulo, nos começos da década de 1980. Comentando a próxima visita ao Brasil do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad, coloquei uma notícia sobre a condenação à morte, no país, de três pessoas que teriam participado de manifestações contra a fraude eleitoral que manteve no poder esse líder político.

Esperava algumas das reações recebidas – de apoio a um suposto diálogo construtivo com o Irã, que o Brasil estaria encabeçando, ou de ser acusado de estar fazendo a “agenda de Israel” ao opôr-me à essa visita. O que não esperava  foram comentários que li sobre a questão da validade ou universalidade dos direitos humanos.

Discutia-se se os direitos humanos, originários da Revolução Francesa, teriam validade universal ou se seriam imposições do “Ocidente” sobre outros países, outras culturas. A opinião de dois participantes da discussão ia no sentido de que seriam   imposições de cunho imperialista, peculiaridades da cultura ocidental, que não poderiam transpor-se a outras culturas.

Perguntei:

“Você está sendo racista, sabe disso ? A dor que você sente se estivesse sendo torturada por ousar ser de esquerda no Brasil na época da ditadura militar, essa dor é diferente da dor que um iraniano (por exemplo) sente ao protestar contra a fraude eleitoral no Irã ou contra a ditadura que lá reina ? A dignidade de uma mulher branca brasileira ocidental,  ela é maior do que a dignidade de uma mulher iraniana que está sendo estuprada antes de sua execução, para não chegar virgem ao paraíso islâmico ? O direito de alguém aqui ser ateu, espírita, umbandista, protestante, budista, ele é maior do que o direito de um chinês a ser seguidor do Falun Gong, ou a de um bahá’i iraniano, sem que ter que sofrer a tortura do banho de merda ou do ferro de passar roupa quente nas costas ?”

A pessoa a quem enderecei diretamente essa pergunta respondeu-me com um exemplo sobre a tribo dos xavantes que praticaria o estupro coletivo com as meninas que alcançassem uma determinada idade, um costume por mim até então desconhecido e de cuja existência não pude ainda encontrar nenhuma referência – mesmo condenando essa prática, ela duvidava da necessidade de proibí-la.

E esse é o sentimento mais forte, de profunda tristeza, tristeza mesclada por repulsa, que me domina neste instante.

Segundo o antigo costume romano, os pais tinham o direito de aceitar, ou não, seus filhos recém-nascidos. Se não os aceitassem, eles eram costumariamente abandonados na natureza, às feras do campo, ou jogados nos esgotos. Os astecas do México praticavam o sacrifício ritual de prisioneiros de guerra ou de escravos, retirando-lhes o coração enquanto ainda estavam vivos. Todas práticas de uma cultura local.Todas práticas que hoje em dia são consideradas como gravemente atentatórias aos direitos humanos, à dignidade do ser humano, à dignidade da vida.

Não vou discutir agora a questão da visita de Ahmadinejad, isso ficará para depois. O que discuto, o que lamento, é ver que todas as ladainhas sobre respeito aos direitos humanos, ladainhas que repetíamos, nós daquela lista eletrônica, quando éramos ainda mais jovens, não eram, aparentemente, para muitos nada mais do que meras palavras sem sentido, sem maior significado.

Condena-se (e justamente!) os casos de tortura atribuídos e lamentavelmente praticados por integrantes do exército americano no Iraque e no Afganistão. Cala-se ou justifica-se a mesma tortura se for praticada por um regime como o iraniano (ou o chinês, ou qualquer outro que não seja do “Ocidente”).

Ver isso, ouvir e ler isso, é quase uma dor existencial.

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O quebra-cabeça da vida

Publicado por Barão de Grão-Mogól em 11 Outubro, 2009

A vida, ela não é mesmo um quebra-cabeças ? Ou uma rota cheia de surpresas, tal qual uma estrada bem reta, daquelas traçadas do oeste americano, e onde de repente aparece uma curva no meio do nada – ou uma estrada secundária que não constava do mapa.

Tive, há cerca de um mês, uma dessas conversas que ajudou a colocar peças que faltavam no quebra-cabeças da minha vida – e que, para ficarmos na figura acima, ao mesmo tempo mostrou-me uma nova estrada possível. Uma conversa que deveria ter tido há muito tempo, pelo menos desde a minha adolescência, desde o dia em que descobri coisas que, nesta ordem, assustaram-me, envergonharam-me (sem motivo válido, mas real),  puseram-me curioso… Não vou entrar em detalhes. Quem tiver que saber, saberá, se já não sabe.

A parte fundamental da história começou não em Rio Claro, mas em Passo Fundo, no Rio Grande do  Sul, com uma passagem mais longa (e provavelmente decisiva) em Caçador, em Santa Catarina, cidade esta da qual desconhecia até existência.

Falar em enigmas não é o objetivo deste blog (caso ele tenha um objetivo além do de satisfazer minha vaidade e de proporcionar-me uma plataforma para escrever na mínha língua materna), por isso calo-me. As peças faltantes que agora se encaixaram, a estrada que não fazia parte do mapa, elas ocupam-me bastante o pensamento. E, também, quem ajudou-me a encontrar o pedaço do quebra-cabeça – sempre, e cada vez mais, presente em mim.

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O Brasil: “carnaval desbundado”

Publicado por Barão de Grão-Mogól em 6 Setembro, 2009

Fazendo esta noite uma pesquisa na Internet sobre um livro que penso em adquirir, encontrei uma resenha do escritor maranhense José Louzeiro, que registro aqui. Trata-se de uma visão de Brasil que é e sempre foi necessária – talvez mais ainda nos nossos dias:

Não basta produzir soja em abundância e muito menos que as montadoras de veículos estejam a despejar milhares de carros nas ruas já atulhadas de tantas latas sobre rodas. Também, não adianta ter o melhor futebol e o carnaval mais desbundado e rebolante de todo o hemisfério. É preciso que haja cultura mesclada ao tempero da erudição, para que não sejamos enquadrados como simples exportadores de produtos primários.

A resenha foi publicada pela primeira vez no jornal O Estado do Maranhão.

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Euskal Herria: o País Basco

Publicado por Barão de Grão-Mogól em 5 Setembro, 2009

Em Rio Claro, na avenida 4, entre a rua 5 e 6, fica o casarão que abriga o Gabinete de Leitura Rio-Clarense, uma das mais antigas bibliotecas públicas do Brasil.

As histórias que se passaram comigo lá, o que aprendi daqueles livros, enganando as bibliotecárias sobre a minha idade para que pudesse ler certos livros que elas consideravam impróprios, subindo as escadas de madeira, o cheiro gostoso de livros velhos…

E foi lá que tive meu primeiro contato literário com o povo basco. Não me lembro do nome do livro, e ele mesmo não era nada de especial – um thriller traduzido do inglês, romanceando episódios da luta contra a repressão anti-basca na época do franquismo na Espanha.

Foram necessárias várias décadas até que o visitasse, pelo menos uma pequena parte do mesmo. O mapa abaixo mostra as sete províncias históricas de Euskal Herria, como a região é chamada na língua basca.

As três províncias mais ao norte do mapa – Lapurdi, Nafarroa Behera e Zuberoa – fazem parte da França, e as outras da Espanha. Aqui uma visão do mesmo mapa, mas mostrando as fronteiras políticas:

Estive, por uma semana, no norte do País Basco, na parte francesa (que integra o departamento de Pyrennés Atlantiques), numa casa de campo situada perto da cidadezinha de Baigorri (em francês, Saint-Étienne-de-Baïgorry)

Picture 097 A igreja de Baigorri

Pensava que o basco não fosse falado de forma quotidiana nessas regiões francesas, mas não é assim – uma grande parte da população local o fala e utiliza regularmente, mesmo que essa língua, que não é aparentada a nenhum outro idioma conhecido, não tenha na França o status legal que tem na porção espanhola do País Basco.

Tive a oportunidade de viver momentos de grande calma – a calma que só alcanço quando estou no alto de uma montanha, o mais isolado possível do ruído feito pelos outros humanos, não dizendo nenhuma palavra, calado, mudo, estupefato até pela majestia da natureza, somente ouvindo os sons do silêncio, para roubar uma frase de Simon & Garfunkel. E também algumas coisas um tanto insólitas envolvendo uma terceira pessoa que nos acompanhava… estórias para se contar, entretanto, não por aqui.

Meus “highlights” pessoais, as impressões que mais me tocaram ? Um grande abutre, dos muitos que vivem por lá, pousado na pequena colina no fundo da casa de campo, numa tarde da semana – ficou lá por vários minutos, permitindo-me tirar várias fotos – e a solitude da montanha. Quase que não tirei fotos desses momentos, porque nenhuma foto, nenhum filme, pode retratar esse sentimento.

O abutre visitante__Uma visão do silêncio possível_

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Leituras: “1932 – O Brasil se Revolta”

Publicado por Barão de Grão-Mogól em 4 Setembro, 2009

José Alfredo Vidigal Pontes: 1932 – O Brasil se revolta. São Paulo: Terceiro Nome, 2004. ISBN 85-87556-35-5 (esgotado no momento)

Continuando as leituras da História do Brasil, passei agora a esse livro editado pela Terceiro Nome – integrante do grupo do jornal “O Estado de S. Paulo” que tematiza a Revolução Constitucionalista de 1932, um dos assuntos que, por razões familiares, sempre me interessou muito.

Meu pai e muitos integrantes da minha família, outros parentes e amigos de minha família e de famílias cognatas participaram, como voluntários, do que também é chamado a Guerra Paulista. Tenho ainda muitas recordações das cerimônias cívicas realizadas a cada 9 de Julho na Praça da Liberdade, em Rio Claro, meu pai com seu terno coberto de medalhas e outras condecorações, ao lado de antigos companheiros de arma (ou de trincheira).

O subtítulo do livro – “O Caráter Nacional de um Movimento Democrático” – demonstra uma das preocupações do autor, a de desavoar a idéia, ainda parte de várias cabeças, de que a “revolução de 32″ era no fundo um movimento separatista, ou um movimento que se limitava somente a São Paulo. Demonstra claramente a participação intensiva, principalmente, de mineiros e gaúchos, que, comprometidos inicialmente à empresa de colocar o país no rumo democrático, decidiram nos últimos momentos conciliar-se com o governo ditatorial de Getúlio Vargas.

Fartamente ilustrado, narra de forma concisa os acontecimentos que levaram à deflagração (antecipada) da revolta, mas dá bem pouco espaço e detalhes ao que aconteceu nas diversas frontes de combate. Preocupa-se bastante com a retaguarda – sem dúvida importante, e é impressionante ler-se a qualidade do esforço de grande parte da população paulista para contribuir à causa – e, um dos outros focos do livro, em ressaltar a participação da família Mesquita (proprietários do grupo O Estado, e de cujo “fundus” vieram várias fotografias utilizadas), tanto na preparação, quanto no desenrolar ulterior.

O que salta à vista, especialmente após minha leitura d’As Noites das Grandes Fogueiras, é o fator do “amadorismo” como se preparavam revoluções no Brasil nas décadas de 1920 e 1930. Já na história da revolução de 1924 em São Paulo pude notar isso, com episódios cômicos de ataques a quartéis não iniciados por motívos incríveis. Em 32, contou-se com o apoio de uma importante guarnição de Mato Grosso, 6.000 homens comandados pelo general Bertholdo Klinger que, sim, chegou a São Paulo na Estação da Luz, recepcionado pelas autoridades e pelo público tal como o messias, não com os seus milhares de soldados, mas com… dez (10) deles !

O conflito armado estava destinado desde o início ao fracasso absoluto. Pouco armadas, com lideranças militares no mínimo incompetentes, não tiveram nenhuma chance. Ao exemplo de Klinger adiciona-se o do então coronel Euclydes Figueiredo, pai do futuro presidente militar João Figueiredo, que, comandando tropas localizadas no Vale do Paraíba, interrompeu seu avanço em direção ao Rio de Janeiro, sem explicações concretas, bem antes da fronteira com aquele estado – uma decisão que tomou qualquer possibilidade de supresa por parte das forças constitucionalistas. As primeiras semanas, decisivas para o conflito, demonstraram somente caos – voluntários mal-preparados enfrentando tropas regulares na fronte sul (fronteira com o Paraná), munições erradas sendo distribuídas à tropa, granadas que não explodiam.

Encontrei no livro várias personagens do episódio anterior das minhas leituras – alguns deles, anteriormente lutadores contra os aspectos visivelmente ditadoriais do governo Arthur Bernardes, estavam agora à proa do apoio à ditadura só aparentemente “provisória” de Getúlio Vargas. Outros, legalistas na década de 1920, colocaram-se ao lado dos paulistas que exigiam o retorno do país à legalidade constitucional.

Vargas usava, como indica Vidigal Pontes , o tema do revanchismo como fundamental nas considerações revolucionárias: teriam sido os derrotados de 1930, as “antigas elites” que, insatisfeitas com o novo governo, tentariam fazer as rodas da história rodar para trás. O autor demonstra de maneira convincente de que não foi assim. O deputado gaúcho João Batista Luzardo é um desses exemplos – mas ele, depois, apoiou o golpe de 1937 instituindo o “Estado Novo” autoritário.

Nada de novo debaixo do sol, se pensarmos que José Sarney faz parte da base de apoio parlamentar da qual dispõe Luís Inácio Lula da Silva.

Uma grande falta no livro: um mapa com indicação do movimento das frontes e das principais batalhas. Talvez isso possa ser corrigido numa segunda edição (está esgotado no momento).

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Leituras: “As Noites das Grandes Fogueiras”

Publicado por Barão de Grão-Mogól em 31 Agosto, 2009

Domingos Meirelles: “As Noites das Grandes Fogueiras. Uma História da Coluna Prestes”

Já que no momento (e desde alguns meses…) estou encontrando grandes dificuldades em concentrar-me para ler literatura, decidi ler mais sobre temas de história, com dois focos principais – Brasil e Estados Unidos.

A história da dita “Coluna Prestes”, na verdade comandada por esse e por Miguel Costa, é sem dúvida um dos temas mais fascinantes não só da história brasileira, como da universal. Uma marcha de mais de dois anos por dezenas de milhares de quilômetros, do sul até o norte do território brasileiro, idealizada por muitos, na época combatida com grande intensidade por forças militares e policiais, e até por jagunços nordestinos.

A coluna começou em São Paulo, no fim de julho de 1924. A cidade, foco de uma rebelião militar contra o então presidente da República Arthur Bernardes, estava sendo bombardeada, com canhões e até pela aviação, pelas forças governamentais. Centenas de mortos, em grande parte civis, milhares de feridos, destruição em várias partes da cidade – um dos primeiros casos do uso da aviação para bombardeios com fins exclusivamente não-militares, com o intento de semear pânico entre a população civil. Mais de 200 mil pessoas deixaram a cidade naquelas semanas, dirigindo-se ao interior.

Estando encurralados, não tendo planejado eficazmente suas ações, os revolucionários, comandados pelo general Isidoro Dias Lopes, decidiram retirar-se da cidade sitiada, em vagões de trem. Passaram por Rio Claro – os antigos, os que conheci na minha infância, ainda se lembravam disso, muitos foram à Estação da antiga Companhia Paulista para vê-los passar em sua jornada que só acabaria anos depois quando pediram asilo político na Bolívia.

O livro de Domingos Meirelles, com suas 700 páginas, usa uma maneira quase ficcional ao relatar a história, traindo a fascinação que o tema exerce sobre o autor – ele visitou pessoalmente muitos dos lugares relacionados à marcha da Coluna. Há, entretanto, alguns problemas, que poderiam ter sido solucionados por um revisor mais atento. Em várias passagens, são repetidas informações dadas há algumas páginas atrás, e percebi pelo menos uma incongruência no relato.

Mesmo tendo destacado que casos de crimes (roubos, estupros, crueldades contra prisioneiros) cometidos pelos integrantes da Coluna eram punidos severamente, na sua visão idealizadora não se focaliza o autor suficientemente nos problemas que a passagem da Coluna por regiões pobres ou paupérrimas representavam à população local: centenas de homens armados tomando posse de alguma cidadezinha, “requisitando” (leia-se: roubando) animais e comida, saqueando o que seria a única farmácia local, atraindo represálias tanto das tropas regulares governamentais quanto de potentados locais com suas tropas de jagunços… um grande sofrimento adicional para uma população que não só não entendia o que esses revolucionários queriam (a queda de um presidente extremamente impopular, Arthur Bernardes, e certas reformas com a finalidade de dar algo mais de democracia ao país eram os objetivos iniciais da Revolução de Julho de 1924), como na maioria dos casos os via como um flagelo divino, tal qual os vikings na Alta Idade Média européia.

Mas, deixando esse ponto de lado, um livro interessante e recomendável para os que se interessem por esses anos fascinantes da história brasileira – a República Velha, por nós conhecida somente por alguns poucos capítulos de algum livro de história que lemos ou tivemos que ler nos distantes anos escolares.

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Não morto, mas dormente…

Publicado por Barão de Grão-Mogól em 18 Agosto, 2009

Este blog, e os outros pelos quais sou responsável, estiveram um tanto quietos nos últimos tempos.

Eles não estão mortos, nem moribundos, mas só dormentes. Fiquem atentos – eles voltarão !

O Barão de Grão-Mogól

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Leituras: “O Choque das Civilizações”

Publicado por Barão de Grão-Mogól em 25 Junho, 2009

Há edições em alemão, francês e inglês (a qual estou lendo) deste livro.

Decidi ler agora o famoso livro de Samuel P. Huntington. Tanto foi escrito sobre ele, que o pus há muito tempo na minha lista de leituras.

Em alguns pontos ultrapassado pelo desenrolar da História – algo nada de incomum – mas fundamental para o entendimento da situação atual. Aponta, com muita clareza, o desafio fundamental que o Islã representa não só para o “Ocidente” (basicamente, os países europeus, os Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia), mas também para o que Huntingdon chama de civilização latino-americana (um ponto no qual dele discordo, já que vejo esta civilização como fazendo parte da ocidental, mesmo tendo suas características próprias).

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